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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Satanás foi responsável pela extinção dos dinossauros? (Novela Gênesis - TV Record)


 Recentemente começou a ser exibida na Record a novela Gênesis. Seguindo a tradição da emissora de fazer novelas bíblicas, esta tem a promessa de ser a maior produção de todas. Curioso com a promessa resolvi assistir os primeiros capítulos da novela. E já de início o primeiro capítulo inicia-se de forma bastante curiosa. No começo satanás é retratado no céu com os anjos, em seguida literalmente é retratado caindo na terra com outros anjos em forma de meteoros que dizimam toda terra e os dinossauros que haviam nela. Surge então o questionamento: houve duas criações? Duas terras? Vamos entender a questão e chegar à compreensão do que está por trás da produção da novela Gênesis.

Na teologia existem algumas teorias que tentam explicar a criação e solucionar a dificuldade com a datação da idade da terra. Uma dessas teorias é chamada de Teoria da Lacuna. Essa teoria propões que houve uma outra criação, original, antes da criação narrada em Gn 1. Segundo essa teoria, a melhor tradução para Gn 1.1-2 seria a seguinte: "No princípio criou Deus os céus e a terra, porém a terra SE TORNOU sem forma e vazia". Quando as traduções mais comuns trazem "a terra ERA sem forma e vazia". Com o "tornou-se" a teoria diz que houve uma primeira criação completa e perfeita. Mas algo aconteceu que destruiu a primeira criação e fez com que ela "se tornasse" sem forma e vazia. Isso provavelmente foi há milhões ou bilhões de anos. Até que Deus refez uma nova criação a partir de Gn 1.3. Por causa desse período entre a primeira e a segunda criações é que essa teoria é conhecida como Teoria da Lacuna.

Como explicação para causa da destruição da primeira terra se tem a queda de Satanás. Ele foi responsável pela destruição dela, e provavelmente foi nesse período que os dinossauros existiram (o que explica também sua extinção). A terra não foi criada sem forma e vazia, foi criada completa. Satanás foi quem a destruiu. Assim, a partir do momento em que ela se tornou sem forma e vazia, Deus resolveu REconstruir a terra. 

Mas essa teoria do intervalo faz sentido à luz do relato bíblico sobre a criação? A resposta é não. E vou listar alguns breves motivos para você.

1. A própria estrutura poética do texto mostra que é mais lógico que "sem forma e vazia" seja um estado inicial da criação, do que o resultado da queda de satanás. Veja como o texto está arranjado: A terra era sem forma e vazia antes do primeiro dia. Nos dias de 1 a 3 vemos Deus separando luz das trevas, dia da noite, águas, céus e terra - Des estava dando forma ao que estava disforme. Nos dias seguintes ele fez brotar, plantas e árvores, animais terrestres, celeste e marítimos. Sol, lua e estrelas.  E por fim, o homem - Deus estava preenchendo o que estava vazio. Então faz mais sentido que sem forma e vazio seja o estado inicial de uma obra em composição do que o estado final de um criação destruída.

2. O relado da criação é muito importante para a teologia. Eles ecoam por toda a Bíblia e fundamentam grandes doutrinas: casamento e família, antrolopologia bíblica ou até mesmo a árvore da vida que ressurge em apocalipse. Sabendo da importância do relato da origens para a teologia parece improvável que Deus, ao inspirar Moisés, nos deixaria na ignorância sobre tudo que houve antes da queda de Satanás destruir a primeira criação. 

3. A novela retrata a queda de Satanás e seus anjos como "bolas de fogo" caindo do céu, meteoros que atingiram a terra causando destruição. O que não faz nenhum sentido. A queda de Satanás foi sua expulsão da presença de Deus, figurativo, assim como a queda do homem. Ele não caiu literalmente do céu, isso na verdade é muito fantasioso.

4. Como a Bíblia deveria ser lida se houvesse uma primeira criação? Como lidar com os textos que falam da criação? Se referem a primeira ou a segunda criação? Não há definição disso. 

5. O livro de apocalipse claramente mostra Deus restaurando a criação de Gn 1 e 2, por causa do pecado. E este é um grande propósito divino ao longo das escrituras. Se realmente existisse uma primeira criação antes da criação adâmica faria mais sentido que o mundo fosse restaurado à luz da primeira e não da segunda criação.

Há outras inconsistências posteriores na novela, mas por hora, é só. Leia a Bíblia!


Shalom;
Mayon Renner.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Soul e a busca por um propósito na vida

O filme Soul, da Pixar, como em outras animações recentes da produtora (Divertidamente, Viva - A vida é uma festa) agrada tanto crianças quanto adultos. Tem uma mensagem que faz as crianças se agradarem do filme e que levam os adultos a sensíveis reflexões. O filmes conta a história do músico Joe e 22. Um professor de música de escola, amante do Jazz, cujo sonho é fazer parte de um grupo de Jazz de sucesso. 22 é uma alma que não tem o menor interesse de deixar a pré-vida e viver na terra. Enquanto Joe é extremamente apegado à sua vida e em alcançar o sucesso musical, 22 não tem o menor interesse de viver. A premissa principal do filme é que vale a pena viver e que a vida deve ser aproveitada a cada momento. Contudo muitas outras reflexões paralelas podem ser feitas a partir das ricas situações do filme, sobre a capacidade de influenciar pessoas, egoísmo ou sucesso profissional.

Um dos dilemas da animação é que Joe acredita o propósito da sua vida é tocar numa banda de Jazz, enquanto a 22 nunca ganha seu passe da pré-vida para a terra por nunca encontrar um missão para sua vida. No fim ambos aprendem que o propósito da vida na verdade é construído ao longo da própria vida. Joe entende que a missão de sua vida não se resume ao mercado de trabalho, E 22 aprende que seu propósito de vida se definirá à medida que se vive.

A reflexão posta pelo filme desperta algumas das dúvidas que todos temos, e que ao menos uma vez na vida já pensamos sobre elas. Para que nascemos? Por que existimos? Qual o sentido da vida? Onde queremos ou devemos chegar?

Questões que a Bíblia nos responde muito bem. A vida tem um sentido, tem um propósito e tem um caminho. Gn 1.27-27 ensina que a humanidade foi criada à imagem de Deus e que sua instrução inicial era espelhar essa imagem e espalhá-la pela terra. Ser administradores fiéis, criar filhos à imagem de Deus e fazer discípulos à imagem do Senhor Jesus Cristo (Mt 28.19-20). Tudo isso é para a glória de Deus: todo o que é chamado pelo meu nome, a quem criei para a minha glória, a quem formei e fiz". Isaías 43:7

Em uma sociedade em que as pessoas vivem para os relacionamentos e que ser solteiro pode não ser uma dádiva, a Bíblia ensina que o propósito dos solteiros é glorificar a Deus na sua solteirice. Quando muitos focam suas vidas no sucesso acadêmico e profissional, a Bíblia ensina que o homem deve viver para Deus. Em tempos em que a sexualidade é centro da vida e o maior dilema para muitos, o propósito da vida continua sendo glorificar a Deus. Seja no emprego que for, na pobreza ou riqueza, em qualquer lugar que seja, em qualquer circunstância o sentido da vida é glorificar a Deus. Fomos criados por Ele e para Ele (Cl 1.16). Viemos dEle e voltaremos um dia para Ele (Ef 1.9-10). Até lá, vivamos para Ele (Rm 12.1) .


Shalom;

Maykon Renner.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Por que não ler livros de autoajuda

A literatura de autoajuda é uma das literaturas mais procuradas nos últimos tempos. Alguns desses livros estão entre os mais vendidos da história. Com certeza vocês já devem ter ouvido falar sobre o livro "Como fazer amigos e influenciar pessoas", publicado em 1936, ele é um dos precursores do mercado de autoajuda e um dos livros mais vendidos da história. Há alguns anos foi publicada uma "atualização" (um segundo livro) chamada "Como fazer amigos e influenciar pessoas na era digital". Muito conhecido de todos também é o livro "O monge e o executivo", que apesar de ser um livro sobre liderança ainda se encaixa na categoria de autoajuda. O que é surpreendente é que o mercado de autoajuda também "invadiu" o meio cristão. Há muitos autores que são conhecidos no meio cristão pelo seus livros de autoajuda. Mas há algum problema com os cristãos que leem literatura de autoajuda (seja ela cristã ou secular)? É o que tentaremos compreender aqui.

Começamos com a pergunta: o que é autoajuda? Olhando atentamente os vocábulos que formam a expressão podemos dizer que é um modo de ajuda própria, um método para que a pessoa aprimore-se pessoalmente sem precisar da ajuda de um terceiro. O objetivo  é aprender a viver bem e alcançar o sucesso na vida. Um ponto alto da literatura é que ela consegue se identificar bastante com as dificuldades diárias do seu leitor comum. Porém, no geral, esse tipo de literatura, embora não seja completamente inútil, pode ser mais danoso do que proveitoso, tanto para o leitor secular e mais ainda para o leitor cristão. E eu lhe dou algumas razões.

Primeiro, é uma literatura fraca em sua escrita e pouco desafiadora. Boa parte desses livros se resumem em chavões e frases de efeito que chamam a atenção apenas das mentes mais ingênuas e desavisadas. É uma literatura de certo modo repetitiva porque os assuntos são quase sempre os mesmos (como alcançar algum tipo de sucesso). É uma leitura sem conteúdo expressivo. Muitas vezes são apenas manuais da vida diária como "faça isso", ou "seja assim", "siga esses passos". Não são livros que exijam muito esforço intelectual do leitor para sua leitura; com isso não estou advogando em favor de uma leitura intelectualista, mas quero ressaltar o fato de que como escrita de qualidade (até mesmo artística) esse tipo de material tem pouquíssimo a oferecer. Sinceramente, não me entenda mal, um cristão, leitor assíduo da Bíblia, que é um livro tão rico em literatura e inclusive escrita artística, um livro de tão alta qualidade, deveria ser mais criterioso com a qualidade dos livros que lê.

Segundo, é um tipo de literatura extremamente otimista e, por isso, quase sempre mentirosa. Além de geralmente ser simplista. Nesse tipo de literatura não há espaço para o erro, para o insucesso. Falta uma pitada de realismo nesses livros que prometem uma vida de sucesso. Nem todos serão bem sucedidos, nem todos serão felizes, nem todos alcançarão seu objetivos. Isso porque esses livros dificilmente tem em perspectiva a noção de pecado, que tantos males tem causado neste mundo e tem desgraçado e vida de tantas pessoas. Muitos acusam esse livros de apresentarem respostas fáceis para os problemas da vida. E muitos título parecem prometer isso realmente: "O Segredo", "Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes", "Os segredos da mente milionária", "Nunca desista de seus sonhos" etc. Vai dizer que nenhum deles te chamou a atenção? Muitas pessoas na realidade podem se sentir piores ao final de uma leitura dessas por tentarem e verem o seu insucesso em seguir as orientações do livro. Muitas pessoas na realidade vão mal na vida porque seu pecado as aprisiona. Disso os livros de autoajuda não dão conta. A Bíblia é quem verdadeiramente dá conta dos grandes anseios da vida humana, ensina  maravilhosamente como viver bem no mundo (Pv 1.7), dá grandes ensinamentos sobre a vida financeira, trabalho, relacionamentos e tudo isso centrado no maior conhecedor do homem, no homem mais humano que já pisou nesta terra: Jesus Cristo.

Por último, e esse é, no meu ponto de vista, o principal motivo pelo qual a literatura de autoajuda é danosa principalmente para cristãos, é que esse método só considera que o único agente decisivo de mudança na vida das pessoas são elas mesmas. Há muita ênfase no "poder da mente", na "força de vontade" e no "esforço próprio" como meios de se atingir um objetivo. Quase nunca se considera que são inúmeros os fatores que influenciam nas rotas da nossa vida. Muitas coisas fogem do poder próprio, e muitas delas estão nas mão de outras pessoas. E tudo, absolutamente tudo, está nas mãos de Deus. Nessa literatura o homem se torna regente se sua própria vida e age para alcançar o sucesso que ele deseja. O cristão é, portanto, tentado a se esquecer de Deus como o ser que controla absolutamente tudo na criação, que decreta todas as coisas e mesmo que aquilo que o homem alcança lhe é, antes, concedido por Deus (Sl 104.14-15).

Livros de autoajuda, ainda que possam contribuir com alguma coisa,  são livros que os cristãos deveriam evitar. A quantidade de livros que são lançados anualmente é absurda, e cada escritor que apresente um método mais maravilhoso que outro para os dilemas da vida, não há fim, não há concenso. Conheço pessoas que já leram vários e sempre surge um melhor que o outro, um com uma solução melhor que o outro. Há milhares de outros bons livros, com bom conteúdo, bem melhor fundamentados que podem dar boas contribuições para a vida. E a Bíblia é o principal deles; nela há tesouros maravilhosos como os livros de Eclesiastes, Provérbios e Salmos que falam tão profundamente ao coração do homem aflito por ajuda e desejoso de viver uma vida sábia. Não há ajuda melhor que a ajuda do alto.

Shalom;
Maykon Renner.
É ele que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento:
o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor.

Salmos 104:14,15
É ele que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento:
o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor.

Salmos 104:14,15
É ele que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento:
o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor.

Salmos 104:14,15
É ele que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento:
o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor.

Salmos 104:14,15
É ele que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento:
o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor.

Salmos 104:14,15

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Orientações no livro de Jó para os teólogos "modernos"




Uma das grandes vantagens e bênçãos deste século com a globalização e o uso da internet tem sido a democratização do conhecimento (acho que podemos falar assim). Hoje as pessoas têm muito mais acesso a conhecimento do que antes. E isso a proporções gigantescas. Os jovens do século XXI têm incomparavelmente mais acesso à informação do que tinham seus pais há 30 anos (o que tem gerado um grupo de “pseudo-intelectuais”, mas esta já é outra questão). Olhando para o contexto cristão, é notável que esse evento também ocorre dentro das igrejas; por meio da internet jovens cristãos tem muito mais acesso a conteúdo teológico que há poucos anos atrás. Se alguém pesquisar no Google hoje sobre “cinco pontos do calvinismo” o pesquisador trará mais de 150 mil resultados quase que instantaneamente. O leitor pode acessar algumas dessas páginas e se considerar expert em calvinismo. Esse fenômeno tem gerado nas igrejas jovens arrogantes que sabem tudo de Deus, mas não tem uma vida prática de piedade, “pseudo-teólogos” (quem sabe até “pseudo-cristãos”).
Além disso, há também aqueles que se diplomam, até leem bons livros de teologia e tornam-se "detentores das verdades sobre Deus"; que entendem que sua maturidade cristã está em quantas teorias teológicas domina.
Milhares de anos atrás a Bíblia já alertava para o quão tolas são essas pessoas. Jó fala especialmente do caso de Elifaz, Bildade e Zofar. Homens “sábios” cujo perfil era de intelectuais detentores da sabedoria divina. Com o caso desses homens fica a lição de que: (1) Deus não pode ser posto numa caixa de pensamento; (2) Crescimento intelectual deve estar ligado a relacionamento pessoal.
            Vamos entender como era a teologia desses homens. Eles tinham um modelo de retribuição divina com o qual julgavam a situação de Jó (culpado!). Elifaz via Deus como um ser justo, tão justo que nem as estrelas eram consideradas justas diante de dEle. Para ele as calamidades da vida eram unicamente consequência do pecado. Portanto, o justo jamais sofreria. Sua sabedoria vinha daquilo que ele observava (um pouco de misticismo). Bildade pensava de forma semelhante à Elifaz e ainda enfatizava que Deus julgava o ímpio ainda em vida, sua riqueza era consumida quase que imediatamente pelo juízo divino. Porém, sua sabedoria vinha da tradição, daquilo que os mais velhos o tinham ensinado. Na visão de Zofar, a sabedoria de Deus é inescrutável, e ele era tão misericordioso que até tinha deixado alguns dos pecados de Jó impunes. O ímpio vive na miséria ao passo que o justo é enriquecido pela misericórdia divina. Ele julgava ter o verdadeiro entendimento doutrinário sobre o mal.
Resumindo, o pensamento dos três é o seguinte:
·        - Deus é justo;
·        - Por ser justo, ele pune o pecado;
·        - Logo, quando alguém sofre é porque pecou e está sendo punido por Deus.

O principal problema com o pensamento desses homens é que eles acabavam limitando a ação de Deus. Como se dissessem: “Deus só age dessa maneira”. Colocavam-no numa caixa. Esse é o problema com muitos dos teólogos e pseudo-intelectuais cristãos hoje. Acham que sabem tudo de Deus, que podem prever a forma como Deus age. Como Elifaz, Bildade e Zofar, são arrogantes, donos da lei, desconhecedores da graça. "Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?" Rm 11.34.
Ter um encontro pessoal com Deus e ouvir dEle tantas verdades sobre a excelência de si mesmo em relação ao homem provocou em Jó uma transformação emocionante. O que antes era um conhecimento superficial de Deus (de ouvir falar, 42.5) se tornou um conhecimento relacional após o encontro pessoal com Yahweh. Isso fez com que Jó reconhecesse profundamente quem é o Senhor (Jó 42.2) e humildemente se arrependesse pela insignificância de quem ele realmente é (Jó 42.6). E quando homens acham que a maturidade cristã vem da quantidade de informações teológicas que armazenam na mente, acabam abandonando o exercício da piedade. São homens cujo relacionamento com Deus se torna superficial. São homens que se esqueceram do quanto é importante seu encontro pessoal diário com Deus e acabam estagnando no processo de conformação à imagem de Cristo. O crescimento espiritual está intimamente ligado ao relacionamento pessoal com Deus. A verdadeira teologia deve levar ao homem a exercer sua piedade cristã em busca ávida pela presença de Deus. Teologia e piedade devem caminhar juntas. “No temor do Senhor está a sabedoria, e evitar o mal é ter entendimento” Jó 28.28.
No mais, não há limite para a produção de livros, conhecimento é produzido em todo momento tentando explicar o sentido da vida, os males do mundo, a essência o divino; sem Deus todo esse estudo deixa exausto o corpo (Ec 12.12). Importa que exercite-se na santa Escritura (II Tm 2.15) e na piedade que “para tudo é proveitosa, porque tem promessa da vida presente e da futura” (I Tm 4.8).

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Sabacílio ou Concitina?

Desta vez teremos aqui no blog o texto de um amigo colaborador, falando sobre concílio e sabatina. O processo comum para alguém ser "aceito" oficialmente como pastor numa igreja (ao menos as tradicionais protestantes)  é cursar teologia e em seguida ser examinado por pastores (com perguntas teológicas), que, ao final, decidirão se o candidato está aprovado/apto ou não para o ministério pastoral. No entanto, melhores esclarecimentos sobre este processo e sua necessidade são dificilmente explicitados aos candidatos. E é por causa dessa lacuna que Gilherme (autor do texto que segue) resolveu pesquisar um pouco sobre o assunto e questionar os conceitos afim de refletirmos um pouco sobre nossas práticas denominacionais.

SABACÍLIO OU CONCITINA?

Durante muito tempo uma certa dúvida começou a pairar sobre minha cabeça (como aquela nuvenzinha de chuva tão apresentada em desenhos animados) sobre um certo assunto: CONCÍLIO. Como bom curioso que sou (este é meu problema), resolvi procurar a solução de minhas dúvidas acerca do assunto, e pra meu desapontamento, descobri que o significado da palavra Concílio, segundo o dicionário Aurélio e o Houaiss, é: uma assembleia das autoridades eclesiásticas católicas/cristãs. Ela é convocada para discutir e resolver as questões da Igreja Cristã com relação à sua doutrina e disciplina.

Agora comparemos com o significado da palavra SABATINA. Os mesmos dicionários usados para pesquisa sobre o significado da palavra concílio, dão à sabatina o seguinte significado: revisão de matéria, feita, normalmente, sob forma de arguição oral, individual, pelo professor". Confesso que não estou entendendo mais nada sobre nosso tradicional "concílio examinador de candidatos ao pastoreio". Para que entendamos melhor minha indignação com a palavra e maneira, não contra o fato em si, tentarei mostrar na relação a baixo o real significado de um Concílio.

Concílios da Igreja Indivisa:

01. NICEIA I – 20/05 A 25/07 de 325 
Assunto principal: a confissão de fé contra o Arianismo: igualdade de natureza do Filho com o Pai.

02. CONSTATINOPLA I – maio a junho de 381 
Assunto principal: a confissão da divindade do Espírito Santo

03. EFESO – 22/06 a 17/07 de 431 
Assunto principal: Cristo é uma só pessoa e duas natureza maternidade divina de Maria, contra Nestório, Maria, a mãe de Deus – THEOTOKOS

04. CALCEDONIA – 08/10 a 1º/11 de 451 
Assunto principal: afirmação das duas naturezas na única pessoa de Cristo.

05. CONSTANTINOPLA II – 05/05 a 02/07 de 553 
Assunto principal: condenação dos nestorianos.

06. CONSTANTINOPLA III – 07/11 de 680 a 16/09 de 681 
Assunto principal: Condenação do monoteletismo: em Cristo há realmente, duas vontades distintas, Divina e humana;

07. NICEIA II – 24/09 a 23/10 de 787 
Assunto principal: contra os iconoclastas: há sentido e liceidade na veneração de imagens (ícones).

Concílios da Igreja Romana:

08. CONSTANTINOPLA IV – 05/10 de 869 a 28/02 de 870 
Assunto principal: extinção do cisma do patriarca Fócio.

09. LATRÃO I – 18/03 a 06/04 de 1123 
Assunto principal: confirmação da Concordata de Worm 

10. LATRÃO II – abril de 1139 
Assunto principal: o cisma de Anacleto II

11. LATRÃO III – 05 a 19 de março de 1179 
Assunto principal: fixação da necessidade de dois terços dos votos na eleição do Papa

12. LATRÃO IV – 11 a 30 de novembro de 1215 
Assunto principal: confissão de fé contra os cataris; a transubstanciação na Eucaristia; a confissão e a comunhão anuais.

13. LYON I – 28/06 a 17/07 de 1245
Papa: Inocêncio IV (1243-1254) 
Assunto principal: deposição do imperador Frederico II

14. LYON II – 07/05 a 17/07 de 1274
Papa: Gregório X (1271-1276) 
Assuntos principais: procedimentos referentes ao conclave; união com os gregos; cruzada.

15. VIENA -16/10 de 1311 a 06/05 de 1312 
Assunto principal: Supressão da Ordem dos Templários; campanha de pobreza dos franciscanos; decretos de reforma.

16. CONSTANÇA – 05/11 de 1414 a 22/04 de 1418 
Assuntos principais: 
– resignação do Papa romano, Gregório XII (1405-1415)
– deposição do Papa conciliar, em 29/05/1415 – deposição do Papa avinhense, Benedito XIII (1394-1415) em 26/07/1417
– eleição de Martinho V em 11/11/1417 
Assuntos principais: extinção do Grande Cisma; condenação de João Hus, Decreto relativo à supremacia do concílio sobre o Papa e decreto relativo à periodicidade dos concílios; concordata com as cinco nações conciliaristas. 

17. BASILÉIA-FERRAR-FLORENÇA – em Basiléia de 23/07/1431 a 07/05/1437em Ferrara de 18/09/1437 a 1º/01/1438 em Florença de 16/07/1439 a? Em Roma, a partir de 25/04/1442 
Assuntos principais: reunião com os gregos em 06/07/143 com os armênios em 22/11/1439 com os jacobistas em 04/02/1442

18. LATRÃO V – 10/05/1512 a 16/03/1517 
Assunto principal: contra o concílio cismático de Pisa (1511-1512), decretos de reforma.

A partir de 1517: Reforma e surgimento das Igrejas Protestantes:

19. TRENTO – 13/12/1545 a 04/12/1563 (em três períodos) 
Assuntos principais: contra a Reforma de Lutero; doutrina sobre a Escritura e a Tradição, o pecado original e a justificação, os sacramentos e a missa, a veneração dos santos, decretos de reforma. 

20. VATICANO I – 08/12/1869 a 18/07/1870 
Assuntos principais: definição da doutrina da fé católica, do primado e da infalibilidade do Papa

21. VATICANO II – 11/10/1962 a 07/12/1965 
Assuntos principais: “Procuremos apresentar aos homens de nosso tempo, íntegra e pura, a verdade de Deus de tal maneira que eles a possam compreender e a ela espontaneamente assentir. Pois somos Pastores…” (João XXIII aos padres conciliares, na homilia de abertura do concílio).
(FONTE: www.cleofas.com.br).

Não sei se ficou bastante claro a diferença, mas pra mim, ficou transparente que quando se coloca um candidato a frente de um clero, e lhe são sujeitas perguntas sobre o conhecimento transmitido pela sua instituição de ensino, configura-se uma sabatina e não um concílio. Ainda se faz necessário fazer algumas ressalvas: se o ministério pastoral é um "chamado divino", por que depende da aprovação humana? Se um candidato é preparado durante anos para sua sabatina, não estaria nosso clero desaprovando a sua instituição de ensino, levando em consideração que ele foi “cria” da sua própria instituição?


Guilherme de Freitas Neto.